| Mestre Carreiro Reis Gonçalo Pimenta. Foto tirada em 2011 por Kate Flor. |
No último fim de semana do mês de junho, os carreiros de Damolândia
partem para uma jornada reverenciada durante um ano inteiro. O destino é o
Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade, uma longa viagem consumada em três
dias: um percurso de pelo menos 68 quilômetros, na marcha lenta, contínua e
sonora do carro de bois. No trajeto passam por estradas de chão, rodovias
estaduais, perímetros urbanos, sendo que a maior parte do trecho compreende
zonas rurais. Famílias inteiras dedicam-se a esta empreita, num ciclo que se
renova anualmente, reproduzem uma prática ancestral, afinal, a inserção do
carro de bois na história da humanidade não se restringiu à movimentação de
cargas, ele sempre teve relação íntima com o transporte de pessoas para as
festas populares.
O desfile dos carros de
bois é uma grande atração da Festa do Divino Pai Eterno em Trindade, uma vez
que a maior romaria do centro oeste, atrai carreiros de várias cidade goianas,
e por incrível que isso possa soar, o número de carros aumenta vertiginosamente
a cada ano. São carreiros de Petrolina, Caturaí, Nova Veneza, Campo Limpo, Ouro
Verde de Goiás, Silvânia, Inhumas, Ipameri, Caldas Novas, Itaberaí, São Luís de
Montes Belos, Anápolis, etc.
Notavelmente, o maior número de carros parte do município de Damolândia,
cidade que concentra quantidade considerável de carros de bois em plena
atividade e a comunidade como um todo reconhece esse patrimônio como expressão
de sua identidade cultural.
A Romaria do Divino Pai Eterno teve início em meados de 1830, com o achado de um medalhão por um casal que habitava a localidade em que se encontra a Matriz de Trindade. Ali processou-se uma fé simples, sem nada de extraordinário ou miraculosamente original, produto das devoções de caráter campesino.
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| Réplica do medalhão que deu origem á devoção local do Divino Pai Eterno |
O casal Constantino Xavier, tendo em seu oratório particular a medalha de barro na qual se via a coroação de Nossa Senhora pela Santíssima Trindade, diante dela rezava o terço. De princípio os vizinhos começaram a participar; depois outras pessoas chegaram. A fama de graças e milagres ali alcançados foi aos poucos ganhando o sertão; tanto que, em 1843 foi necessária a construção de um pequeno oratório a que chamaram "Casa de Oração". (...) Isto porque o modesto oratório residencial já não comportava tanta gente que vinha dos mais distantes lugares venerar a pequena imagem a qual, inexplicavelmente, passaram a chamar de "Divino Padre Eterno", numa referência única à figura de Deus Pai ali representado entre outras. (JACÓB, 2010. p.78-79)
Podemos fazer algumas suposições sobre o fato da devoção popular estar direcionada especificamente á figura do Divino Pai Eterno, ou mesmo à Trindade, enquanto o significado da peça, essencialmente mariana, é outro: ressalta a glória de Maria elevada aos céus, realçada pela magnífica presença da divindade una, trina e eterna. Uma leitura viável seria o próprio desconhecimento da população sobre os elementos da fé e doutrina cristã, ou seja, dificuldade de se entender os contornos da imagem; uma outra suposição levantada por Amir Salomão Jacób: os devotos acharam melhor "conversarem" e fazerem seus pedidos diretamente a Deus, conferindo maior importância a esse elemento representado na imagem; e, outra leitura possível, seria o fato da mulher ser discriminada numa sociedade de cunho eminentemente patriarcal, sendo praticamente ignorada no contexto da devoção. O fato é que a romaria, nesse universo místico que a caracteriza, nasceu e se firmou, atraindo multidões.
Carlos Rodrigues Brandão destaca os elementos do catolicismo campesino que dão significado à esse fenômeno de massas, que, movidas por um ideal comum, peregrinam em busca da divindade adorada:
“ Lá embaixo” , ou “na roça”, não existe família que não tenha um ou dois milagres caseiros para contar. Em cada comunidade camponesa a história oficial da vida e das artes de um “santo da Igreja” é substituída pela saga de mitos e lendas de milagres acontecidos durante a sua vida, em algum lugar longe, e que acontecem, então, em toda a parte mas sobretudo “aqui mesmo”. (...) A rotina do milagre faz com que, em qualquer área confessional, familiar ou comunitária seja para pedi-lo ou para agradecê-lo. Entre os católicos, os pequenos e grandes rituais coletivos de “festa do padroeiro” – festejos de santo do bairro, rezas de terço aos santos juninos, funções roceiras de dança de São Gonçalo, procissões rústicas entre sítios ou dentro de um deles, romarias coletivas da vizinhança ou da família [...] são não só a memória trazida do mito do milagre ao seu rito “de paga”, como também a reprodução de situações coletivas de se fazer novos pedidos. (BRANDÃO, 1986. p.132)
| Ex-voto localizado na sala dos milagres do Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade. Foto tirada em 2013 por Kate Flor. |
| Ex-voto localizado na sala dos milagres do Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade. Foto tirada em 2013 por Kate Flor |
Hoje, o desfile de carros de bois se destaca como um dos momentos mais importantes da Festa do Divino e essa tradição apenas se manteve, como exemplo de fé e perseverança de seus participantes. Existe o relato de que na década de 1970 o trânsito de carro de bois foi proibido na cidade, por representar risco para os transeuntes, além do incômodo causado pelos bois. A sociedade estava se modernizando, a repressão e a ideia de higienização poderia pôr termo a uma prática ancestral. A maior parte dos carros de bois pararam de ir à Trindade, mas alguns poucos carreiros de Damolândia resistiram e continuaram se arrastando vagarosamente para a "terra santa", quebrando o silêncio das solidões, com seu chiado agudo e monótono, longas e penosas jornadas. Ao menos é assim que se reproduz na história oral da cidade. Com o tempo, mais pessoas foram se interessando em fazer o percurso de carro de bois, foram aderindo e esse numero vem aumentando vertiginosamente ano após ano.
| Foto da família do carreiro José Salu, um dos mantenedores da romaria dos carreiros durante o período da proibição. Acervo pessoal José Salu, coletada em 2010. |
Em 2002 uma fatalidade atinge a romaria, num momento em que a participação dos carreiros na Festa já havia se consagrado. Além do desfile, a 'missa dos carreiros' celebrada ao estilo de missa sertaneja, figuravam as homenagens dirigidas aos fiéis devotos. Com dia e horário específicos para acontecer, os carros de bois desfilavam pela cidade, encantando multidões; grande número de pessoas se deslocam à cidade, particularmente para apreciarem o cortejo. No decorrer do desfile de 2002, numa das curvas da cidade, a menina Ada Cira, teve a sua vida ceifada, fatalmente atropelada por um dos carros. Mais uma vez se levanta uma questão na sociedade, sobre os riscos que a presença maciça de um grande número de bois podia representar aos romeiros. Felizmente, reconhecido o valor desse patrimônio cultural não só para a identidade dos goianos, mas para o povo brasileiro, optou-se pela criação de ferramentas para a manutenção dessa importante expressão da cultura popular tradicional. Assim, em poucos anos construiu-se um carreiródromo na cidade, exclusivamente para o desfile das carreatas durante a Festa, proporcionando segurança e ordem aos espectadores.
Muitos acreditam que as famílias dos carreiros mobilizam-se para a romaria apenas nos momentos prévios à Festa, estão completamente enganados. Se trata na verdade, de preparativos que acontecem durante o ciclo de um ano inteiro. Logo que retornam para casa, as tradicionais famílias carreiras já estão planejando a romaria do ano seguinte. A lida com o carro de bois envolve treino constante, aliás, cada boi tem seu nome e seu lugar específico na disposição das juntas que vão atreladas ao carro. A boiada é racionalmente estruturada pelo carreiro, de acordo com a observação dos animais, este tem seus próprios critérios para determinar a melhor função de cada animal na tração, os que vão à direita e à esquerda, os de guia e de coice. Mesmo depois de amansados pra conduzir o carro, a boiada carreira tem que estar em constante manejo para se habituarem com a tarefa e não estranharem o fluxo intenso do trânsito de automóveis e multidões durante a viagem.
| Sr. Reis na fabricação de uma peça do carro (cocão). Foto tirada em 2014 por Kate Flor. |
Em Damolândia, a qualquer época do ano se pode encontrar carros de bois transitando pela cidade e estradas rurais, as carreatas são utilizadas em tarefas cotidianas da fazenda e as famílias também participam de outras festividades e encontros no decorrer do ano. Essa atividade incessante, demanda manutenção contínua. Por mais que o carro seja um artifício de longa duração, algumas peças precisam ser repostas, como chumaço e os cocões, que desgastam e/ou quebram constantemente, devido o atrito com as rodas. O eixo também podem se desgastar ou rachar, assim como as rodas, o que ocasiona na necessidade de substituí-los em intervalos de um ou dois anos. Além disso não convém reaproveitar os bois muitas viagens, alguns carreiros alegam que eles ficam preguiçosos com o tempo, decai o seu rendimento e eficiência, devendo ser trocados dentro de cinco ou seis anos.
| Sr José Salu e presidente Lula, num ato simbólico em que conduziu um carro de bois ao Distrito Federal, a peça hoje se encontra exposta no Palácio do Planalto |
Assim, o trato com os bois, a tarefa de amansá-los, treiná-los para conduzir o carro e o próprio trato com o carro fazem com que essa vivência seja experimentada coletivamente e constantemente no município de Damolândia. Na cidade existem vários carapinas, nome referente aos artesãos que fabricam os carros. Durante a minha pesquisa conheci quatro deles, seu Geraldo Coronha, faleceu aos 90 anos, aprendeu o modo de fazer com seu Honorato Dâmaso, pioneiro fundador da cidade. Seu Geraldo, por sua vez, repassou seus saberes para Reis Gonçalo Pimenta, Giovanni e José Salu, que atualmente são os principais carapinas da cidade. Apesar de possuírem conhecimento para o fabrico do carro, se limitam na construção de peças de manutenção, pois as madeiras de lei empregadas na construção da mesa do carro, já não são encontradas ou não podem ser extraídas -como o bálsamo, que em decorrência da sua escassez, foi substituído ao longo do tempo pelo jacarandá, angico e jatobá.
Nesse sentido, a reprodução da romaria dos carreiros do Divino ultrapassa toda ordem de barreiras, de nível, ambiental, social e econômico. Se por um lado a sociedade se moderniza virtuosamente, a indústria automobilística segue com lançamentos de modelos de última geração, inversamente, um grupo considerável de pessoas atua espontaneamente pela manutenção de saberes e fazeres que acompanham a humanidade por milênios. Os carreiros do Divino não têm apoio de editais de incentivo à cultura, não recebem financiamento algum para a realização dessa empreita. Muito pelo contrário, tiram do próprio bolso todo o custo para a manutenção dos carros e compra dos bois; se ausentam de suas fazendas, sítios e chácaras, perdem duas semanas de trabalho, muitas vezes pagam terceiros para cuidarem de seus afazeres na roça; no trajeto, pagam pelo aluguel dos pastos durante os pousos e toda estadia em Trindade, uma quantia que é taxada por cada boi. Se dedicam exclusivamente pela fé e desejo de manter a tradição, não almejam nada em troca, salvo as bênçãos divinas renovadas a cada viagem.
A expectativa é que em breve a Romaria dos Carreiros seja beneficiada por políticas de salvaguarda do patrimônio imaterial. Entende-se por salvaguarda as medidas que visam garantir a viabilidade do patrimônio cultural imaterial, tais como a identificação, documentação, investigação, preservação, proteção, promoção, valorização, transmissão - por meio da educação formal e não formal - e a revitalização deste patrimônio em seus diversos aspectos. Esse processo está em curso, uma vez que o IPHAN de Goiás já inventariou um dossiê sobre os carreiros do Divino, e mais recentemente lançou um edital para o registro do bem cultural. Os carreiros por sua vez, estão articulando desde o ano passado a formalização de uma Associação dos Carreiros de Damolândia. Iniciativas que só vêm a contribuir para a fortalecimento e consolidação de uma manifestação cultural que se difunde de maneira vigorosa pelo esforço próprio dos atores envolvidos.
| Saída da Cidade de Damolândia, por Kate Flor, 2014. |
O alimento compartilhado durante o trajeto. A tradicional paçoca de carne.
Fotos de Kate Flor, 2011.
| Algumas manutenções são necessárias durante o percurso. Por Kate Flor, 2011. |
| Os carreiros se ajudam nos trechos mais desafiantes, como descidas íngremes. Por Kate Flor, 2011. |
| Presença marcante de mulheres, além de adolescentes e crianças. Por Kate Flor, 2011. |
| Os pousos representam momentos de descontração e interação, tempo pra tomar café, fazer a ceia e relembrar viagens antigas. Por Kate Flor, 2011. |
| No dia seguinte a jornada recomeça. Por Kate Flor, 2011. |
| Se algum carro necessita de reparos, todos estão dispostos a auxiliar. Por Kate Flor, 2011. |
| Algumas pausas são necessárias para o trato dos animais. Por Kate Flor, 2011. |
| Passar nos perímetros urbanos é um grande desafio. Por Kate Flor, 2011. |
| Os carros dividem espaço na Rodovia (trecho de Goianira). Por Kate Flor, 2011. |
| Adriano Mendonça, Candieiro. Por Kate Flor, 2014. |
| Sr. José Salu, carreiro e carapina, dos pioneiros responsáveis pela manutenção da tradição em Trindade. Por Kate Flor, 2014. |
| Sr Reis Gonçalo Pimenta, mestre carreiro e carapina. Por Kate Flor, 2011. |
Registro filmográfico Realizado no último dia 08-06, preparativos do mestre carreiro Reis Gonçalo Pimenta e sua família para a Romaria de 2014.
Agradecimentos
Família Gonçalo Pimenta Mendonça Loures pela oportunidade dessa vivência na romaria de 2011 e amizade sincera que temos cultivado desde 2010: Sr Reis Gonçalo Pimenta e Sra Maria José Mendonça loures, Adriano Mendonça, Adriele Mendonça e Elládia Loures.
Sr. José Salu pelas longas conversas e acima de tudo pela paciência em explicar detalhes do trato com os bois, com o carro e belas histórias da romaria a essa novata, no decorrer desses quatro anos.
Às minhas queridas Flavia da Rocha Lima e Patricia Marcelina Loures por me encorajarem na criação desse blog para compartilhar minhas experiências em campo.
À todos os carreiros romeiros, sempre prestativos e simpáticos.
Dedico esse e muitos outros trabalhos a vocês!!
Referências
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Os Deuses do Povo. São Paulo: Brasiliense, 1986.
JACÓB, Amir Salomão. A Santíssima Trindade do Barro Preto - História da Romaria de Trindade. Trindade: Editora UCG, 2010.
NOGUEIRA, Wilson Cavalcanti. Mestre Carreiro. Goiânia: A Folclórica, Instituto Goiano do Folclore, 1980.

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